Austir nasceu no período das chuvas e tempestades, época em que suas terras eram banhadas pelas cheias dos rios e havia abundância de alimentos. Filho da druida Amra, do Clã dos Salgueiros, e do patrulheiro Faelar, do Clã da Lua, seu nascimento foi celebrado como símbolo de união entre os dois maiores clãs das florestas de Lethyr.
“Bendito seja o bebê que nasce da paz e do sangue dos clãs.”
Essa era a frase que Austir ouvia em sua língua materna durante a infância — anos de harmonia moldaram sua alma como o barro moldado por mãos hábeis. Ele foi criado com o amor à natureza de sua mãe e a disciplina das armas e trilhas de seu pai. Aprendeu o uso da espada e da magia, e também a arte do arco, das armadilhas e da vigilância.
Mas aos 58 anos, a guerra contra os orcs de Gorgor e suas bestas enlouquecidas tomou um preço alto. Sua mãe sacrificou a vida para deter a invasão, invocando uma barreira viva de vinhas e troncos que ainda hoje divide Lethyr do grande vale ao norte. A perda devastou Faelar, que mergulhou em tristeza e raiva, plantando no coração de Austir uma semente amarga — a desconfiança dos humanoides e o desejo de proteção inabalável.
Nos anos que se seguiram, Faelar abandonou as celebrações, os deveres e até o próprio filho, obcecado por um objetivo sombrio: trazer Amra de volta. Usou influência, riqueza e magia antiga para buscar aqueles que ousariam desenterrar os mortos.
Quarenta anos após a morte de Amra, e prestes a alcançar a idade adulta, Austir viu seu pai retornar: abatido, olhos fundos, acompanhado de um velho humano curvado, de barba curta e um olho cego marcado por cicatriz — F’ormoric. Os dois tornaram-se inseparáveis, visitando à noite a barreira mágica onde os ossos de Amra jaziam.
Durante nove longos anos, negligenciaram tudo: os clãs, as tradições, os avisos dos anciões e, principalmente, Austir. F’ormoric convenceu Faelar de que a rara Lua de Sangue — um evento que ocorre a cada 666 anos — seria a única chance de reviver sua amada.
Na sétima noite do sétimo mês, o ritual foi realizado.
F’ormoric posicionou os ossos de Amra sobre uma mesa de pedra, cercada por flores raras, uma tigela com carne de origem desconhecida, uma gema ancestral do Clã dos Salgueiros cravada entre suas costelas, e por fim, o sangue de Faelar — cortado com uma lâmina ancestral — derramado sobre o corpo da falecida.
E então as palavras proibidas foram entoadas:
“Iskennrazir nac’ma er turgrinssjev AMRA nazir Isken’otep,
Iskennrazir nac’ma er turgrinssjev AMRA nazir isken’otep,
FU’LISKENNRAZIR NAC’MA ETO TURGRINSSJEV BALLOR AM AMRA ISKEN’OTEP BAHADHUR!”
O céu sangrou. A terra tremeu. Nuvens negras e espiraladas tomaram o horizonte. Vozes do além ecoaram com os ventos. Uma flecha acertou F’ormoric no peito — tarde demais. A carne se moldou aos ossos. As flores tornaram-se pele. E diante de todos, um corpo se ergueu com olhos brilhando em vermelho maligno, falando com mil vozes. Um portal foi aberto nos céus.
A chacina começou com a decapitação de Faelar pelas garras de um corruptor.
Austir, em choque, fugiu entre criaturas infernais que surgiram como um enxame. Os elfos tentaram conter a invasão, mas em quinze minutos tudo estava consumado. O portal se fechou. Restaram apenas pegadas queimadas, um altar profanado, e os corpos dos caídos espalhados como folhas no inverno.
Sozinho, sem poder curar ou salvar ninguém, Austir entrou em transe. Seu grito desesperado ecoou por todo o vale. Foi quando ouviu a voz de sua mãe, suave e firme como outrora:
“Austir, esqueça as lições e escute sua mãe. Corra como o vento para longe, pois irão te culpar por isso. Faça isso. Agora.”
Ele acordou com as trombetas élficas ao longe. Correu para casa, reuniu o que pôde carregar, e partiu, marcado para sempre pelo amor, pela tragédia… e pelo silêncio.
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