Histórico Egdurmur

Egdurmur

A vida é curiosa. Me lembro de como era ser um jovem elfo. Ter pais protetores e amorosos, brincar pela floresta alta e afastar a tristeza da realidade. Sabe? Eu tive uma infância boa. Filho de dois líderes de clãs, fui ensinado a caminhar com firmeza, a tomar decisões justas e imparciais, mas sempre com amor. Me disseram que um dia eu faria a diferença para o nosso mundo, e que viveríamos séculos de paz e harmonia entre os povos.

Mas aquelas palavras não podiam estar mais distantes da realidade.

O mal me transformou em adulto antes da hora. A primeira rachadura no meu mundo aconteceu quando minha mãe, tentando evitar as invasões dos malditos orcs — criaturas degeneradas — foi morta por eles. Eu não estava lá. Mas prometi, com lágrimas nos olhos, que para cada ferida em seu corpo, mil orcs cairiam no inferno.

Tudo isso enquanto perguntas ecoavam na minha mente: por que cometem tantas atrocidades em nome de deuses? E por que esses deuses permitem?

Anos se passaram. Meu pai se tornou amargo, distante. Começou a abusar de seus poderes, obcecado pela possibilidade de trazer minha mãe de volta. Eu segui meus deveres, usando meu arco em nome do meu povo. Já era um ranger, e defendia nossas terras dos invasores. Cada flecha disparada, cada orc que caía, me dava paz. Era como honrar meu nome, o nome da minha mãe, da minha família.

Mesmo com raiva dos deuses, eu encontrava conforto na ordem natural da vida. Cada orc a menos significava um mundo um pouco mais equilibrado. Sim, eu acreditava estar cumprindo meu papel.

Um dia, após meses desaparecido, meu pai retornou. Mas algo estava estranho — ele havia mudado. Um humano sombrio o acompanhava, e ninguém mais podia entrar em seus aposentos. Em certa noite, houve um ritual durante um eclipse. Os sussurros entre os elfos falavam de presságios e perigos. Mas o que se passa na mente de alguém que se recusa a aceitar o destino imposto pelos deuses?

O desafio ao destino de minha mãe destruiu a minha vida. Gritos desesperados ecoaram do portal aberto pelo ritual. Um banho de sangue seguiu-se à sua abertura. Sim, eu me escondi. O medo me consumia. Os deuses mostraram-se cruéis, vingativos. Minha vila foi dizimada. Creio que apenas eu sobrevivi.

Fugi. Passei anos vagando, escondendo minha identidade. Até que, numa estalagem, ouvi falar do Vale da Adaga, onde aventureiros eram sempre bem-vindos. Ferido após uma missão, escondi-me num estábulo distante. No dia seguinte, um casal humano me encontrou. Ela estava grávida; ele, curioso por nunca ter visto um elfo. Eram boas pessoas. Combinei de ajudá-los na fazenda em troca de abrigo.

Vi seu filho nascer. O tratei como um irmão. Ensinei a ele o arco e a espada, como aprendi. Mas, de novo, os deuses zombaram de mim. Orcs de Cormanthor mataram aquele que eu considerava irmão.

Por quê? Por que me perseguem? Por que não protegem seus devotos?

Meu ódio pelos drows cresceu a ponto de rivalizar com meu ódio pelos orcs. Estudei seus costumes, aprendi seus idiomas. Entrei para um grupo de aventureiros: a TMLI. Queriam justiça para os inocentes. Eram boas pessoas. Mas era difícil ouvir o anão guerreiro clamar por Moradin a cada golpe. Ou ver o gnomo mago sussurrar preces ao seu deus.

Por que os deuses deles os ouviam, mas os meus pais foram ignorados? Por que meu povo foi abandonado?

Durante a batalha final pela Cachoeira da Adaga, o deus do anão intercedeu por ele. Eu vi. Foi frustrante. Em seguida, caí na provocação de uma drogue capturada, e cravei uma flecha em sua boca. Foi um erro. Um crime de guerra.

Fui preso. O rosto dela me perseguia em sonhos. A culpa, o medo e a vergonha corroíam minha alma. Lembrei de minha mãe. Da sua serenidade. Decidi trilhar um novo caminho.

Busquei um círculo druídico. Fui enviado à floresta ancestral de Cormanthor. Lá, tudo seguia em equilíbrio. Descobri que minha presença não era necessária. Era reconfortante.

Até reencontrar o rosto da drogue que matei.

Mas não era ela. Era Silvana. Gêmea da outra. E guia no caminho dos druidas. Seu nome lembrava o do meu deus. Tudo parecia uma piada de mau gosto.

Ela me ensinou, mesmo me desafiando constantemente. Mostrou que meu ódio era inconsistente. Que talvez eu estivesse colocando todos no mesmo saco. Meu medo impedia minha concentração. E eu temia Silvanus nunca me ouvir.

Desesperado, pedi ajuda a Silvana para curar minha alma. Ela aceitou.

Eu morri tentando me livrar da raiva. E, para minha desgraça, renasci como um dron. Meu corpo mudou. Pele negra, cabelos pálidos. O reflexo na água foi um trauma. Era um brinquedo dos deuses. Nunca mais encarei um espelho.

Voltei aos Vales, tentando ser aceito. Fui reconhecido por um antigo amigo, que disse: “Se ele diz que é você, ele é você.” Quis abraçá-lo. Mas mantive firmeza. Provei quem eu era.

Passei a me chamar Egdurmur — Espinho Negro. Rezei a Silvanus. Busquei equilíbrio. Ajudamos a reacender a chama de Tethyamar. Quase morri no processo. Combatemos os Zhentarim, recuperamos a Espada dos Vales. Recebi itens mágicos de Silvanus para continuar minha jornada.

Mas novos desafios surgiram. Licantropos queriam dominar a floresta. Assassinei-os enquanto dormiam. Tentei intimidar o líder, mas ele era forte demais. Fugi. Perdi itens de Silvana. Fui repreendido. Tentei recuperar o item, fui derrotado. Para recuperá-lo, aceitei a maldição da licantropia.

Cometi crimes em transe. Matei inocentes. Consumi carne. O clérigo anão me libertou da maldição.

Mas os deuses não se cansam de brincar comigo.

A elfa. Aquela que me amou em todas as vidas, agora licantropa sob domínio de Malar. Para libertá-la, precisei roubar a Pedra do Conclave de Jade. Fui enganado. Preso. Mais uma vez, os deuses estavam por trás.

Na fúria, roguei a Silvanus por poder. Ele me ouviu. Expulsei o licantropo de Cormanthor. Mas Silvana nada sabia da elfa. Fui julgado pelos elfos. O clérigo de Garl Glittergold me ignorou. Disse que os deuses não interfeririam em minha vida.

Talvez estivesse certo.

Ou talvez seja apenas mais um dos que não consegue enxergar além da própria fé.

Hoje, estou morto. Finalmente em paz. E tive o privilégio de morrer pelas mãos de quem sempre confiei.

Agradeço ao mago, que sempre foi meu norte. Ao guerreiro, que mostrou que os deuses realmente escutam. Ao anão clérigo, que respeitou minha alma, mesmo quando minha aparência gritava o contrário.

Desejo que as batalhas de vocês sejam justas. Que suas lutas tenham propósito. Que não faltem uns aos outros.

Obrigado pela vida que tive. E por terem me permitido tê-la ao lado de vocês, meus amigos.

 

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