Eu, Kantramor Lâmina Brilhante, sacerdote do glorioso deus Moradin, venho falar de maneira honesta e transparente — talvez como nunca antes — para contar um pouco de minha história, com a esperança de que o Criador dos Anões, assim como tem feito com toda a minha existência, a use conforme a Sua vontade.
Ao olhar para trás, percebo que minha caminhada com Moradin foi longa — e, infelizmente, nem sempre pude dizer que caminhei com Ele. Não por culpa Dele, pois Moradin se mostrou fiel em todos os momentos. Mas por minha culpa. E é justamente isso que pretendo relatar de maneira verdadeira, sem as amarras do orgulho.
Moradin nunca prometeu uma caminhada fácil. Muitos são os obstáculos — tanto os externos quanto os que nós mesmos criamos. O mundo é regido pelos deuses e seus desígnios. Há aqueles que enxergam isso com clareza, e há os que não, seja por ignorância ou por negligência.
Mas saber disso é apenas compreender o óbvio. A verdadeira dificuldade está em entender qual é o nosso papel nesse tabuleiro que chamamos de vida. Quando eu era jovem, me ensinaram que sempre que nos preocupamos com algo, é porque aquilo é importante — ao menos para nós. Um artista, por exemplo, que acredita que sua apresentação tocará o público, inevitavelmente sentirá nervosismo, mesmo sendo experiente.
Partindo dessa premissa, imaginem como nós, sacerdotes, deveríamos nos sentir, já que nossos sermões e ações não dizem respeito apenas à arte ou à magia, mas à salvação. É por isso que falo: tratar da fé em Moradin de forma relaxada ou displicente pode nos fazer esquecer, pouco a pouco, a enorme responsabilidade que carregamos. Eis meu primeiro alerta.
Junto da responsabilidade, porém, vem o medo. E foi aí, meus amigos… foi aí que fraquejei — e ainda fraquejo. Dizer isso não é fácil. Confessar isso é extremamente difícil. Mas é necessário.
Ao longo de minha vida, compreendi o que Moradin fez de nós. Fomos moldados da rocha, e isso nos dá vantagens inegáveis — na mineração, nas batalhas, na resistência. Mas ser moldado da rocha também dificulta nos ajoelharmos. Admitir erros e pedir perdão não é simples para um anão. Somos orgulhosos, firmes e determinados — e assim Moradin nos fez.
Mesmo assim, devemos deixar o orgulho de lado e admitir nossos fracassos, pois só assim evitaremos repeti-los. Meu amor e devoção por Moradin nasceram comigo. Sempre tive fé. Lembro-me de quando era fácil… apenas adorá-lo, apenas segui-lo.
Desde cedo soube que queria ser sacerdote. E, naquele início, as dificuldades eram protocolares. Eu tinha tudo que precisava. Cumpria minhas obrigações com retidão. Era reconhecido como um anão íntegro e, apesar do nervosismo natural ao falar em público, nunca tive medo de verdade — não o tipo de medo que leva à ruína.
Com o tempo, veio a confirmação de que Moradin havia me escolhido entre os poucos para realizar milagres. Fui separado dos demais. Recebi instruções especiais. Alguns líderes diziam que eu era digno. Outros diziam que eu era uma farsa. E foi aí que a dúvida se instalou em mim pela primeira vez.
Comecei a ser testado constantemente. Às vezes eu conseguia, outras vezes, não. A única certeza que habitava meu coração era o amor por Moradin. Queria ser digno, queria ser capaz.
Após os milagres, fui nomeado acólito do sumo sacerdote. E, embora evitasse notoriedade, acompanhei-o em todas as suas tarefas — inclusive nas que envolviam política e diplomacia. Visitávamos com frequência o castelo anão, especialmente após uma batalha desastrosa que havia dizimado nossa companhia de elite e ceifado o genro do rei.
A princesa, grávida e em luto, estava em profunda depressão. Como eu acompanhava o sacerdote, vi de perto o estado dela. Vi a dor dela, que era também a dor de todo o reino.
Foi nesse tempo que me senti afastado da essência da fé. Antes éramos apenas Moradin e eu. Agora, havia política, agendas e provas constantes. E com isso veio o medo. O medo de não ser digno. O medo de fracassar.
Foi então que tive uma visão. Eu estaria no quarto da princesa. Administraria um sedativo, desenharia com pó de chumbo o machado de Moradin em volta de sua cama e, com um punhal ungido, realizaria o parto do príncipe. Em minha visão, Moradin conduziria minhas mãos e encerraria o luto do reino.
A fé queimou em mim como no início. Todo medo desapareceu. Eu sabia que havia sido escolhido para aquela missão. Planejei tudo. Um gnomo — um bom amigo — tinha acesso livre ao quarto da princesa. Com sua ajuda, pude entrar.
Tudo correu como planejado — exceto por mim. O medo de errar me assolou. Ao cortar o ventre da princesa, vi o sangue escorrendo. O gnomo, horrorizado, me olhou com espanto. Eu hesitei.
Por um instante, pensei em voltar atrás. Mas o ventre já estava aberto. O sangue, derramado. E então me agarrei a Moradin como nunca antes. O medo me impulsionou. E, com Sua graça, tudo saiu como na visão. O parto foi um milagre. Moradin havia agido através de mim.
Depois disso, fui libertado da supervisão do sumo sacerdote. Fui enviado aos Vales para cumprir a vontade de Moradin. Achei que voltaria a ser aquele jovem simples, apenas eu e Ele. Mas não percebi que o medo havia ficado. Sempre à espreita.
E o pior dia da minha vida foi quando, em minha arrogância, me afastei da única certeza que possuía: a presença de Moradin. O medo gera confusão. A confusão, dúvida. A dúvida abala a fé. Um sacerdote sem fé é um guerreiro sem espada.
Fui encarregado de guardar um artefato poderoso: o Livro de Cyric. Quis provar minha fé e pedi a Moradin permissão para abri-lo. A resposta que recebi — hoje percebo — foi uma armadilha. Talvez Cyric tenha me enganado, questionando aquilo que era meu alicerce: minha fé.
Abri o livro. E perdi tudo. Os símbolos sagrados desapareceram — das vestes, do martelo, e da alma. Tornei-me servo de Cyric, o Deus da Mentira. Que dor me causa lembrar desses dias…
Mas Moradin é misericordioso. E aqui deixo mais uma lição: depois de Moradin, os amigos. Os verdadeiros amigos. Aqueles que arriscam suas vidas por você.
Graças a Moradin, tive amigos assim: Forkefin, Abathur e Austir. Eles me resgataram da mentira de Cyric e me reconduziram à fé verdadeira. Mesmo assim, as dúvidas retornaram. Confundi fé com soberba, desejei nunca mais hesitar… e, ironicamente, tornei a errar por hesitação.
Errei, e vidas inocentes — inclusive crianças anãs — pagaram o preço. Erros cometidos por um sacerdote… por mim. Me perdoem.
Hoje entendo que em todas as decisões existe um frio paralisante. A linha entre coragem e responsabilidade é tênue. E todas as ações geram consequências — boas para uns, ruins para outros.
Se vivermos com medo do julgamento, hesitaremos. E, muitas vezes, o maior acusador é você mesmo. As vozes externas podem cessar. Mas a sua… essa ecoa para sempre.
Por isso, deixo meu maior conselho — para mim e para vocês: andem com Moradin. Não façam nada por vocês, façam tudo por Ele. Deixem de lado orgulho, vaidade, medo, ganância. Porque, com Moradin, até o erro pode servir a um propósito.
Entreguem seus corações ao Criador. Pois até o que parece negativo aos nossos olhos, Ele pode tornar positivo. Fiquem atentos. Muitas vezes, os sentimentos que nos afastam Dele já estão entre nós, apenas esperando o momento de se manifestarem.
Desejo sucesso em suas caminhadas. Lembrem-se: a redenção existe para aqueles que a buscam. Instruam nossos irmãos com sabedoria, responsabilidade e coragem. E coloquem sempre Moradin acima de tudo — inclusive de vocês mesmos.