“Memórias de um Nascido nas Sombras”
1º dia da Lua Alta, Ano de Magias Selvagens (1372 C.V., Calendário de Volo)
Nas redondezas de Portão Ocidental, acampamento improvisado.
“Escrever é o que me resta… para lembrar quem sou, ou talvez quem eu era.”
Nasci em Portão Ocidental, uma cidade esquecida entre os mapas da Costa do Dragão, onde a chuva parece cair mais do que o sol brilhar. Mas jamais conheci o que é ser de um lar. Fui deixado ainda bebê no limiar frio do Orfanato das Irmãs da Penitência, junto de uma irmã que eu nunca soube que existia.
As “irmãs” que ali reinavam não eram piedosas, nem religiosas. Chamavam-se assim, mas praticavam rituais secretos nas profundezas do orfanato, sempre à noite, sempre com uma criança a menos no dia seguinte. Lá, a dor era rotina, o medo era companheiro — e o silêncio, uma oração constante.
Aos dez invernos, um “teste” foi feito. Um cristal negro, carregado de magia antiga, foi usado para medir nossa “aptidão”. Mas aquilo não era para nos treinar — era para nos oferecer. No dia em que minha irmã foi chamada, algo me tocou a mente. Uma voz…
“Fracasse, Milo. Ou perderá mais do que pensa ter.”
Obedeci. Fingi falhar. Ela foi levada, sob o pretexto de que havia sido adotada. Mentira. Levaram-na para longe, para os domínios sombrios de Asmodeus, cujo culto se espalhava pelas sombras de Faerûn como um incêndio invisível.
Estamos em 1372, o Ano das Magias Selvagens, e dizem que as fronteiras do mundo estão mudando. Há rumores de que Thay se agita, que os Vales vivem tempos tensos, e que Cormyr lambe as feridas após o caos da guerra civil. Mas meu mundo já estava em guerra muito antes disso.
Fugi do orfanato. Contei com a ajuda de outros três órfãos, mas apenas eu escapei vivo. Na fuga desesperada pelas matas encharcadas ao norte, encontrei abrigo em uma torre oculta, onde vivia Altherian Duskveil, um feiticeiro recluso que vira coisas que poucos ousam nomear. Ele me acolheu, viu o que havia em mim — a marca da feitiçaria — e me ensinou a moldar a realidade com palavras e vontade.
Durante anos, treinei, estudei, cresci. Até que precisei voltar à Portão Ocidental por motivos banais: ingredientes, pergaminhos, moedas. Mas nas tavernas escuras ouvi algo que me congelou: uma mulher, parecida comigo, olhos sombrios, havia sido vista décadas atrás sendo levada por clérigos encapuzados a caminho de Impiltur.
Voltei correndo. Mas tarde demais.
A torre de Altherian estava em ruínas, retorcida por uma batalha arcana de imenso poder. Nenhum corpo. Nenhum sobrevivente. Só o símbolo marcado com sangue: o tridente invertido do Senhor dos Nove Infernos.
Ali, soube da verdade: a menina levada era minha irmã. Crescemos juntos e nunca soubemos.
Agora, com vinte verões, carrego meu grimório, minha dor e a fúria de quem sobreviveu ao esquecimento. As forças de Asmodeus, os cultos disfarçados de santuários, os olhos que observam por trás de máscaras… tudo isso voltou para me caçar. Mas desta vez, eu estou pronto.
Se ele tomou minha irmã…
Se ele destruiu meu mestre…
Então que ele prepare o Inferno.
Pois Milo vai descer até lá.
Assinado,
Milo, filho da noite esquecida, aquele que sobreviveu.
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